
Abriu a porta do quarto como já não fazia há anos.
Não entrava ali fazia tanto tempo. Já nem se lembrava das cores das paredes, dos quadros, nem do cobertor da cama.
Com a mínima luz que vinha da porta, e sentindo o forte cheiro a velho, foi tentando encontrar a janela para receber alguma luz.
E a luz foi invadindo de novo aquele cubículo que por tantos anos fora o quarto da sua avó.
Ao mesmo tempo que a luz ia correndo toda a sombra do quarto, Ele ia-se lembrando de tudo o que fizera naquela casa, quando vinha da escola e passava ali a tarde, fazendo companhia a avó que morava sozinha.
"Não percebo porque nunca quis vir morar connosco! Sempre sozinha nesta casa a cair aos bocados."
Lembrava-se quando ficava no quarto a fazer os deveres, ou quando dormia a sesta da tarde. Quando brincava com os carrinhos de madeira que um dia tinham sido do seu avô quando também ele era uma criança, ou quando roubava as bonecas de trapos do tempo de infância da sua avó.
Lembrou-se de estar sentado no colo da avó e ouvir as historias, sempre religiosas, sempre lições, que a avó contava e recontava e ele ouvia sempre.
Quando viu os quadros, os crucifixos, os terços presos nas paredes, agora rosas húmidas, quase sem cor, deslavadas, agora com rachas enormes devido à velhice, com imensas teias de aranha nos cantos.
Olhou para a cama, via-se a quantidade enorme de pó em cima do cobertor carcomido das traças, com as figuras quase indistinguíveis e já sem cor.
"Já passou tanto tempo que morreu. Não tem sentido continuar tudo aqui, apodrecer ainda mais. Que farei com tudo isto?" perguntava-se sabendo que não iria ter resposta.
De repente sentiu uma mão agarrar-lhe a perna "Pai! É o quarto da avó? É tão bonito. Posso ficar com este quarto quando nos mudarmos para cá?"
Gabriel Braga