Todos os dias: Domingo de Carnaval
Melhor ainda. Escolho outro dia. Pode ser o domingo de carnaval. Escolho o domingo de carnaval e ainda antes de ele acordar, arranjar-se e sair à pressa, levanto-me, primeiro um pé descalço no tapete, depois o outro, a ceder apenas dois estalinhos pequenos dos joelhos, vou à casa de banho, despejo-lhe o after shave no bidé e substituo-o pelo perfume ordinário que a irmã dele me deu no Natal. Ele faz a barba e, sem pensar, bate duas vezes com as palmas molhadas de perfume nas faces. E sente o enjoativo do cheiro. Diz Cristina, anda cá. Cristina, não me ouves? Anda cá imediatamente. E eu não vou, claro. Que porcaria é que meteste no meu after shave? E lava a cara com toda a força, como se não fosse a cara, como se fosse um objecto, uma bola de futebol; esfrega o rosto, raspa-o com as unhas, enche-o de sabonete, o que torna o cheiro ainda mais intenso. Cristina, maluca de uma raio, nunca devia ter casado contigo, anormal, maluca maluca. Cristina, aparece, estúpida. Eu, no armário. Eu a rir-me sem que ele me ouça, a abafar-me numa almofada para ele não ouvir. E ele a perder as forças na voz malucamalucamaluca. Ao bater a porta, acordará o Ruben. Esticarei as pernas, arranjarei as roupas no corpo e, no colo, sossegarei a criança até de novo a pousar no berço e a tapar suavemente. E, até ao almoço, sento-me no sofá a imaginá-lo lá para onde vai a cheirar a puta, que é o cheiro do perfume que a irmã dele me deu no natal.
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto




























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