Sunday, October 17, 2004

Todos os dias: Quarta-feira de Cinzas

Aconteceu isto. Foi na quarta-feira de cinzas. De véspera, escolhi a quarta-feira de cinzas e, antes da hora a que o despertador toca todos os dias, sem perturbar o secreto silêncio da madrugada, deslizei da cama e, com um prego enferrujado que estava na dispensa, bati quatro vezes nas lâminas da gillete, levantei-lhes quatro farpas. Ele espalhou o creme com pinceladas precisas e, à pressa, da patilha para o centro da face fez deslizar a gillete. As lascas da lâmina abriram-lhe quatro veios de sangue na cara e gritou alto e o vermelho misturou-se no branco e, incrédulo, a gaguejar, disse mamamaluca de um raio, aterrorizado com o sangue nas mãos e quente no pescoço, gritou Cristina, cabra, louca, nunca devia ter casado contigo. E chamou-me muitas vezes maluca maluca maluca de merda, deste-me um filho maluco como tu, anormal como tu. Louca. No escuro do armário, as minhas gargalhadas polvilhadas, miúdas, pontilhadas nas camisas vincadas e passadas a ferro. E ele lavou a cara para tirar o sabão e estancou o sangue com papel higiénico e disse maluca. Ao bater a porta, acordou o Ruben. Saí do armário e a andar e a correr, peguei no meu filho, beijei-o devagar. O sol desceu um pouco na manhã. Senti o seu peito acalmar-se, senti o toque inocente do seu olhar. E, com o seu corpo pequeno ao colo, as suas mãos, o seu rosto, sentei-me no sofá e, na luz suave que a janela deixava entrar, abracei-o mais e pensei em nós.

José Luís Peixoto

1 Comments:

Blogger stillforty said...

Lindíssimo este texto. Tens muitas "coisas" aqui que eu gosto, música etc...
Hysteria dos Muse é uma das minhas hesterias.
Linkei-te, tem mal?

November 3, 2004 7:54 AM  

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