Todos os dias: Segunda-feira Gorda
Já sei. Vou escolher um dia. Pode ser segunda-feira gorda. Escolho a segunda-feira gorda e, antes de ele se levantar, levanto-me devagarinho, sem tocar no silêncio, e escondo-lhe a gillete. Ele olha para os lados, para cima, para baixo, revolve os frascos de comprimidos, as caixas de aspirinas, as cotonetes, o mercúrio, o álcool e depois grita Cristina, Cristina, onde é que deixaste as minhas lâminas de barbear, Cristina. A seguir, começa a andar pela casa. Maldita mulher, onde é que te meteste, e vai chamar-me maluca, muitas vezes maluca maluca maluca dum raio, maluca de merda. Eu, escondida no armário, rio-me baixinho. Entre lianas de gravatas, sob folhas tropicais de casacos e sobretudos, sufoco gargalhadas. Cristina, aparece. Ele terá pontos de barba a furarem-lhe as faces e dirá Cristina, a brincadeira já não tem piada nehuma. E olhará o relógio e dirá maluca, que nunca foste boa da cabeça, louca, maluca. Ao bater a porta, acordará o Ruben. Com cuidado, sairei do armário para confortar a criança e a devolver ao sono. Depois, sento-me no sofá a imaginá-lo no escritório, sentado à secretária, humilhado por ver que os colegas falam dele e sorriem, que o patrão não lhe disse bom dia, que a mulher do café não o tratou por senhor doutor.
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto




























2 Comments:
horrível.
escrita iberica
perfeito
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