Saturday, October 16, 2004

Todos os dias: Terça-feira de Carnaval

Ou não. Escolho um dia. Pode ser a terça-feira de carnaval. Escolho a terça-feira de carnaval e, antes da manhã, antes do momento rasante do sol a nascer, saio da cama e, com a tesoura de desmembrar os frangos, corto-lhe rente os pêlos do pincel da barba. Ele fica a olhar para o pincel careca por uns instantes, passa-lhe os dedos sem acreditar e grita, Cristina, anda cá ver, Cristina. E fica a segurar o pequeno coto de madeira, como um braço amputado, talhado pela vontade expressa do rei ou do cardeal. Segura, sem utilidade, o cilindro gordo de madeira e diz Cristina, imbecil, maluca de merda, anda cá ver a porcaria que fizeste. Na proteção do armário de paletós e fatos completos, no odor suave das bolas de naftalina, no roer sonoro das traças, rirei. Hei-de rir. Maluca de riso. Maluca, gritará ele. Maluca, dirá sem se ver ao espelho, espreitando apenas o reflexo tísico do relógio no pulso. E talvez então experimente pôr algum creme na cara com as mãos, talvez então se lembre de tentar fazer a barba mesmo assim e talvez já não tenha tempo. Ao bater a porta, acordará o Ruben. Com a agilidade que mantenho, pousarei os pés nos chinelos diante da porta espelhada do armário e, em minutos, cantarei uma música ao menino e verei os seus olhinhos fecharem-se, a respiração acalmar-se. No sofá da sala, como se visse um filme na televisão desligada, fico a manhã toda a imaginá-lo envergonhado, com a barba mal feita, a fazer ruim figura nesses sítios para onde vai e nunca nos leva.

José Luís Peixoto

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